13 janeiro 2011

"A Viagem de Clara - Em Busca do Eu Perdido"


Foto divulgação Ana Paula Lima

Em breve, última apresentação do espetáculo

"A Viagem de Clara - Em Busca do Eu Perdido", da Confesso! Cia. de Teatro com produção de A Imensa Minoria, pela 37ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança.

Local: Grande Teatro do Palácio da Artes
Quando:13 de fevereiro de 2011, domingo, às 16h30min.
Ingressos: R$ 10,00 (preço único)nos Postos Sinparc e R$ 22,00 inteira e R$ 11,00 meia-entrada - no Palácio das Artes


A VIAGEM DE CLARA - EM BUSCA DO EU PERDIDO

Dirigido por André Ferraz, com Direção Musical de Germán Milich e realizado pela Confesso! Cia. de Teatro, "A Viagem de Clara - Em Busca do Eu Perdido" foi o vencedor de 5 prêmios Usiminas/Sinparc 2010, inclusive melhor espetáculo, texto, trilha sonora (executada ao vivo), atriz (Anna Campos) e atriz revelação (Clarisse Elias).
O espetáculo é um musical com diversas referências, como o rock, o funk, o sertanejo, o samba, o baião e a música eletrônica e conta a história de Clara, uma menina que queria ser outra pessoa e que, de tanto desejar, entra em um universo fantástico, onde é atendida pelo "Mestre dos Desejos". Ele a envia a uma incrível viagem de autoconhecimento dentro de seu próprio corpo, repleta de surpresas e aventuras.

FICHA TÉCNICA
Direção: André Ferraz
Direção Musical: Germán Milich
Direção de Arte: Gabriel Coupe
Produção: A Imensa Minoria Produções Artístico-Culturais
Texto: André Ferraz, Aksan Lindenberg, Clarisse Elias, Jéssica Azevedo, Luiz Gonzaga Oliveira e Michelle Braga
Trilha Sonora Original: Aksan Lindenberg, Germán Milich, Marcílio Rosa e André Ferraz
Elenco: Anna Campos, Aksan Lindenberg, André Ferraz, Clarisse Elias, Luiz Gonzaga Oliveira, Marcílio Rosa, Matheus Carcará e Michelle Braga
Cenografia: Jennifer Jacomini e Gabriel Coupe
Figurinos: Clarisse Elias e Ricca
Iluminação e Operação Técnica: Enedson Gomes
Preparação Corporal: Gui Augusto
Preparação Vocal (Belting): Gil Rodrigues
Realização: Confesso! Cia. de Teatro
Agradecimentos: Organização Caça Contos, Grupo Oriundo de Teatro, Escola de Teatro da UFMG e Pós-Graduação da Escola de Belas Artes da UFMG.



Contato
André Ferraz
Direção e Produção Executiva de "A Viagem de Clara - Em Busca do Eu Perdido"
(31) 9378-6194 / 8748-5110
E-mail: aferraz.prod@gmail.com

29 julho 2010

BAIXO CARBONO NÃO É TUDO

Apolo Heringer Lisboa


Para mim o fracasso mais profundo de Copenhagen foi não ter sido Copenhágua!

Ao contrário do que parece, há uma artimanha na proposta da economia do baixo carbono. Esta proposta é comandada pela liderança do partido democrata dos EUA, e a serviço da dominação do mundo pela economia deles. Uma versão quase perfeita de maquiagem ambiental, de lavagem verde de políticas sujas. Querem ter a liderança da agenda ambiental sem mudar o sistema econômico, social, político, ambiental e cultural. É uma estratégia de hegemonia geo-política.

Tem muita gente boa e inteligente embarcando inocentemente ou espertamente, nesta história de economia de baixo carbono. Não que rejeitamos substituir os combustíveis fósseis por energias renováveis. Mas a maioria dos ambientalistas de proa e técnicos do “setor” se equivocam nesta questão política e estratégica. Sempre fica a versão dos que dominam o mundo, mas não é o meu entendimento. Vou dizer por quê.

A economia de baixo carbono permite posar de ambientalista sem sê-lo de fato. O Al Gore lançou aquele filme e recebeu até o prêmio Nobel. Há questionamentos crescentes sobre seus métodos e afirmações. Isto não está esclarecido ainda. Mas esse processo foi útil num primeiro momento e sem dúvida ainda o é, com a mídia falando em economia do baixo carbono e de aquecimento do planeta, propondo energias alternativas etc. Ajudou a colocar o meio ambiente na agenda política internacional. Mas as coisas não se passam com esta relevância que se atribui a esta proposta política.

Porque ela permite não mexer devidamente no sistema de produção e consumo hegemônico internacionalmente, mantendo o consumismo e a destruição de ecossistemas vitais ao equilíbrio da vida. Claro que serão importantes as energias alternativas à queima de combustíveis fósseis. A eólica, a solar, as marés. O etanol. O biodiesel. O carvão de eucalipto, etc. São nossas bandeiras também, mas há aí uma diferença fundamental. Que se respeitem as condições ambientalmente imperativas.

O desmatamento acelerado do cerrado brasileiro e do bioma amazônico, substituindo-o por monoculturas extensivas, para produzir carvão vegetal, etanol e biodiesel, destrói nossa biodiversidade e nada tem de verde! A construção de hidrelétricas grandes e pequenas prá todo lado tem um custo ambiental não computado em carbono. Mas acabam com nossos rios e peixes, desnaturando e apodrecendo os rios com sistemas lênticos eutrofisados (lagos podres).

Pouco se tem falado em consumo sustentável de energia. Vemos edificações novas e oficiais consumindo luz artificial de dia e ar condicionado por todo tempo, por má qualidade da arquitetura desses projetos. Faltam políticas públicas claramente estabelecidas neste sentido. Eu, por exemplo, pago mais IPTU em BH porque tenho placas solares e economizo energia elétrica! Fala-se de aumentar a oferta energética o tempo todo, sem medir as conseqüências e os custos ambientais e sociais.

Pergunto: por que não há uma política do Estado brasileiro impedindo isto, se podemos plantar eucaliptos, cana, oleaginosas e abastecer as grandes empresas plantando em micro, pequenas e médias propriedades já desmatadas e falidas economicamente, agregando a este processo a agricultura familiar, permitindo o desmatamento zero e a distribuição de renda? Isto já é feito com a produção do leite, com as vaquinhas dos pequenos enchendo os caminhões das cooperativas e a Nestlé. Por que não modificar métodos do modo de produção, mantendo o capitalismo, mas conservando o meio ambiente e a qualidade de vida da população? Por que tudo tem que ser apocalíptico (não confundir com eucalíptico) e forçando a barra desse jeito? Por que respeitar a monocultura extensiva gigantesca desmatando ecossistemas naturais e para sempre, sem necessidade econômica real e concentrando renda?

Copenhágua seria a gestão conservacionista por território de bacias hidrográficas e ecossistemas integrados, com foco na qualidade das águas e na biodiversidade das bacias, na conservação do solo, na conservação da flora e fauna e seus ecossistemas. Seriam um eixo bem mais interessante para resolver todas estas questões energéticas e ambientais, com visão sistêmica e sustentabilidade social.

Incluiria o esforço pela economia de baixo carbono, mas não reduziria nem simplificaria a complexidade das questões sociais, econômicas e ambientais à gestão da absorção de um elemento químico chamado carbono. Pois esta proposta de baixo carbono está sendo compatível com o fim dos nossos rios por barragens, a destruição da biodiversidade, destruição de matas nativas por projetos de silvicultura com uso intensivo de agrotóxicos e monocultura. Estão querendo manter intacta a economia que gera estes impactos desnecessários, visando maximização de lucros, socialização de prejuízos e calote nos serviços ambientais, cuja recuperação é transferida aos contribuintes sufocados cada vez mais por impostos.

A economia de baixo carbono é importante, mas ela é complementar, não pode ser o eixo principal de nossa política ambiental. Ela legitima o prosseguimento da liderança do capital financeiro sobe o pensamento do movimento ambiental. Isto está muito claro e não tem sentido ficar para depois.

Termino, repetindo o poema abaixo e sua história. Somos peixes de piracema ou nada seremos na história. Vivemos de vitórias adiadas, nunca derrotados! Embora, quase sempre, morramos sem entrar na Terra Prometida!

“Sou filho do litoral. Vi o oceano lutar contra o rochedo. Toda onda que se atira contra a pedra, volta esfarrapada, desfeita, vencida. No entanto, os penhascos vitoriosos vão de ano para ano desaparecendo na fímbria do mar. Essa é a luta do pensamento contra o interesse, do novo contra o estabelecido. Há milênios que nós assistimos a um calculado esmagamento das idéias, pelas armas, pela calúnia, pela corda. No entanto, apesar disso, o pensamento humano continua a desabrochar como uma grande flor. A nossa vida é constituída de derrotas”.

Afonso Schmidt

Obs. O grande escritor Afonso Schmidt, filho de Cubatão, no litoral paulista, já bastante idoso, não suportou a notícia do golpe militar de 64, falecendo dias após. Um brinde ao querido e velho companheiro.

Abraço, Apolo Heringer

13 maio 2008

Cinecittà apresenta o Filme "10" de Abbas Kiarostami

Rua dos Aymorés, nº 582, Funcionários.
Tel. 3224-5127.

O Diretor: Abbas Kiarostami



por Leila Verçosa


Em meio a um mercado tão acostumado às peripécias das montagens hollywoodianas, pode-se também apreciar algo bem distinto e de real grandeza artística.
Abbas kiarostami nasceu no Irâ em 1940 e iniciou sua carreira como diretor de cinema aos 34 anos. Sua formação profissional passa pela pintura, fotografia, publicidade, teatro, poesia, televisão, entre outras; e para nossa sorte, dentre estas várias ocupações profissionais, ele tem optado pelo cinema pelo fato desta “arte menor” corresponder ao seu estado de inquietude diante da vida. Assim ele explica com suas palavras:

“Com o fato de ter de sobreviver de qualquer maneira e reagir a um profundo sentimento de inadequação, experimento continuamente a exigência de fazer qualquer coisa de novo para ser mais bem aceito. Muitos consideram que na vida é preciso estabelecer uma meta para encontrar o sucesso, mas eu não acredito que funcione dessa maneira. Talvez no mundo dos negócios ou no âmbito científico. Na arte, ao contrário, o aperfeiçoamento só pode surgir da inadequação... Pensamos ser inadequados, não bastante bons, e nos esforçamos para fazer algo diferente. Ultimamente, tenho pensado em um outro tipo de cinema, que me torne mais exigente e que se defina como uma sétima arte. Nesse cinema há música, sonho, história, poesia. Mas, seja como for, acho que o cinema continua a ser uma forma de arte menor. Questiono-me, por exemplo, por que motivo ler uma poesia excita a nossa imaginação e nos convida a participar de sua realização.”

A característica mais forte deste diretor é uma tal “ausência” de sua função nas filmagens, ou seja, a busca por uma sutil presença do diretor, o que dá aos seus filmes um tom quase documentário e cheio de significados. Ele não entrega a mensagem mastigada ao o espectador, ao contrário, ele a disponibiliza, potencialmente, diante do olhar do espectador para que este possa, sozinho, digeri-la e dar-lhe significado.
Diante disso, o diretor abre mão dos vários recursos que a montagem cinematográfica pode dar, principalmente, para o entendimento do filme. Além do mais, suas obras optam pelos planos-seqüência. E é exatamente aí onde o teórico, André Bazin, concordaria com o diretor iraniano, que leva ao espectador a responsabilidade da significação de sua obra.
Além disso, Kiarostami não se preocupa em finalizar suas histórias, mas sim, em dar material para que o espectador possa contemplá-las profundamente. O olhar profundo e analítico do espectador é, portanto, indispensável para a apreciação de seus filmes, além de que, traz uma relação bem próxima com o olho do ator, que, por sua vez é o dispositivo da alma.
Assim, ele foge dos padrões de início, meio e fim, que os habituais roteiros cinematográficos baseiam-se para se concretizar a narrativa. Seus filmes não têm um momento “clímax”, onde o mais importante acontece, eles, simplesmente, acontecem, em ritmo linear, respeitando a ordem cronológica dos acontecimentos. Diante disso, ele constrói a não-narrativa, permitindo ao espectador a vazão da imaginação através do olhar, sem que este perca a noção diegética do filme.

“Não gosto quando o cinema se limita a contar uma história ou quando se torna um substituto da literatura. Não aceito que subestime ou exalte o espectador”.

Apesar de não se enquadrar em nenhum estilo cinematográfico, e sim em seu estilo único, Kiarostami se inspira no neo-realismo italiano. E para dar ainda mais realismo à sua obra, o diretor conta em seus filmes com a “presença constante de atores não profissionais, pessoas das próprias regiões, que se dispõem a interpretar praticamente elas mesmas e se retratarem na tela para o mundo”.
Por sua vez, a tela, o dispositivo do cinema, se torna um reflexo do olhar deste sensível diretor, que, tão habilmente, transforma a câmera em um prolongamento deste seu olhar. E assim transformando o olhar do espectador mais apurado e sensível aos olhos do mundo.

O Filme: Dez - Irã, 2002.


por Leila Verçosa

“Simplicidade não é sinônimo de felicidade. Demorei sessenta anos para ousar um filme como esse”


Abbas Kiarostami nos convida a olhar, profundamente, mais uma de suas obras: Dez. O filme, feito aos impulsos do Movimento Cinema Livre e sob as trilhas do Road Movie, traz à tela uma contemplação quase desmedida da mulher. Mas não de mulheres que são tão costumeiramente fáceis de olhar, mas daquelas mulheres que se escondem atrás dos negros véus impostos pelas duras tradições do Irã.
A mulher que é tão oprimida na realidade iraniana passa a ser o objeto de contemplação e peça chave da história, infiltrando-se assim, no meio do caminho da psicanálise que a coloca diante dos complexos freudianos destinados à ela: O Complexo da Castração, o Complexo de Édipo e a mulher como objeto de contemplação. Tudo isso ilustrado no filme pela representação da repressão feminina no Irã, pelas atitudes, demasiadamente, radicais e machistas do filho diante do ciúme implícito da mãe com o padrasto, e, finalmente, pela mulher como objeto de contemplação (voyerismo), ressaltada nos close-up’s.
Produzido em, literalmente, 10 capítulos, com apenas duas câmeras instaladas no interior de um carro (uma focada no piloto e outra no passageiro) acompanham, igualmente, 10 diferentes situações da personagem principal (uma mulher iraniana, como muitas outras na atualidade), com seus respectivos 10 passageiros. Portanto, há apenas o enquadramento em close-up, que moldura com perfeição a obra contemplada, e que diante dos olhos personagens se bastam para contar o que se passa. Os planos são longos, contribuindo, assim, para a “não-narrativa” de Kiarostami.
A voz no filme, por sua vez, é completamente diegética; não há como desvincular a imagem do som, neste caso, a cena não existiria realmente. Não obstante, em meios aos desenfreados diálogos iranianos nota-se uma peculiaridade do diretor, ao enfantizar, muitas vezes, a câmera no rosto de quem escuta e não de quem fala. Visto que, em alguns momentos, nem ao menos, vemos os rostos de quem fala (no caso da prostituta e da senhora que está indo rezar no Mausoléu).
Finalmente, o roteiro simples do filme é o suficiente para que se compreenda a trajetória desta personagem apenas em alguns poucos dias. Desta forma, O diretor não foge ao seu estilo, deixando no final do filme, a mensagem de que estas mulheres estão mais vivas que nunca; E que, se antes a repressão as intimidava, hoje, podem estar, ao menos, perto da noção de liberdade.

28 abril 2008

M C Escher Drawing hands


Imperdível Livros difíceis de achar DE GRAÇA!!!!

SIM!!!!! clicando aqui pode baixar através de rapidshare livros que todo estudante da vida gostaria de ter, pelo menos para ler uma frase. (A Imensa Minoria não acredita na quantidade de palavras ingeridas, Borges interpretando aos clássicos nos lembra que o universo inteiro está numa pétala de rosa).
POR FAVOR USEM E ABUSEM. PODEM ESCREVER PEDINDO ALGUM LIVRO OU MATERIAL, SERÁ UM PRAZER PESQUISAR E COMPARTILHAR, A VIDA É ISSO.
A Poética (+ ou - 500 A.C)
Autor Aristóteles (formato pdf)
Neste livro de 2.500 anos o autor ( e os miles de tradutores) explica a estrutura de um novo fenómeno chamado Teatro. Aristóteles continua sendo O Cara
Paradoxo sobre o comediante (1769)
Autor Diderot (formato pdf)
“Os comediantes impressionam o público, não quando estão furiosos, mas quando interpretam bem o furor. Nos tribunais, nas assembléias, em todos os lugares onde se quer ficar senhor dos espíritos, finge-se ora a cólera, ora o temor, ora a piedade, a fim de levar os outros a esses sentimentos diversos. Aquilo que a própria paixão não conseguiu fazer, a paixão bem imitada o executa.”
Também contém as seguintes obras do mesmo autor
Cartas sobre cegos para uso dos que vêem
O sobrinho de rameau
Diálogo entre D'Alembert e Diderot entre outros
Imenso Abraço e Boa Leitura

27 abril 2008

LEI Nº 9.529 DE 27 DE FEVEREIRO DE 2008 BH

DISPÕE SOBRE A SUBSTITUIÇÃO DE SACO PLÁSTICO DE LIXO E DE SACOLA PLÁSTICA POR SACO DE LIXO ECOLÓGICO E SACOLA ECOLÓGICA, E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS.
O Povo do Município de Belo Horizonte, por seus representantes, decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1° - O uso de saco plástico de lixo e sacolas plásticas deverá ser substituído pelo uso de saco de lixo ecológico e de sacola ecológica, nos termos desta Lei. Parágrafo Único - VETADOI, II, III e IV – VETADO
Art. 2° - A substituição de uso a que se refere essa lei acontecerá nos estabelecimentos privados e nos órgãos e entidades do Poder Público sediados no Município.
Art. 3° - A substituição de uso a que se refere essa lei terá caráter facultativo pelo prazo de 3 (três) anos, contando a partir da data de publicação desta Lei, e caráter obrigatório a partir de então.
Art. 4° - VETADOI, II, III e IV – VETADO1° - VETADO2° - VETADO
Art. 5° - VETADO
Art. 6° - Fica o Poder Executivo autorizado a realizar campanhas educativas e de conscientização de cidadãos e instituições a respeito da substituição de que trata esta Lei.
Art 7° - Esta Lei será regulamentada no prazo de 120 (cento e vinte) dias, contando da data de sua publicação
Art. 8° - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Belo Horizonte, 27 de fevereiro de 2008.

16 abril 2008

EDITORIAL N° 3 A Imensa Minoria

Não existem adultos. É uma mentira a divisão entre adultos e crianças, não se pode dizer que uma pessoa de 86 anos saiba mais que uma de 3 sobre o universo e seu mistérios. Conservamos uma ingenuidade à prova de bombas, continuamos acreditando em contos de fadas, onde há um bem e um mau e um final feliz: a última cartada da justiça.A nossa ingenuidade nos confunde, nos faz acreditar que com uma declaração basta para parar a violência no mundo. As leis são feitas pelos mesmos homens que as quebrantam, são votadas e escritas com a mesma mão que enfia a faca ou divide o pão. A “Lei” que existe nos tribunais e nos juizados, muitas vezes não vale rua afora, onde a “Lei da Vida” é mais poderosa. A Declaração Universal dos Direitos das Crianças, não é tão universal assim. Ela não representa todas as culturas nem todas as idéias e concepções sobre a infância do mundo e também não tem como ser aplicada em todos os casos. Proibir a fome não vai trazer o alimento; proibir a sede não purificará a água; proibir a violência não deterá as balas.A criança que eu fui ficaria muito despontada com o adulto que eu sou. Sim, perdi meu sonho, não sou aquele que algum dia quis ser. O psicólogo me repete que a culpa não é minha; meus amigos me aconselham não me aprofundar tanto, ficar um pouco mais na superfície; a família me lembra que eu era bem melhor quando criança do que agora; meu chefe me acusa de não querer responsabilidades etc. Não existe o advogado que ganhe um juízo sobre meu passado, nem que ressuscite os tempos idos. Não existe a legislação que permita desfazer erros. Tentemos aproveitar esta pouca oportunidade que ainda temos. Tentemos criar um mundo onde a vida seja suficiente para todos e não precisemos mais de leis quebrantadas.
O Tigre
EXPEDIENTE
Editor e Diretor Geral: Germán Milich - O Tigre
Revisão Final e Jornalista Responsável: André Ferraz - O Samurai (DRT 3244)
Projeto Gráfico, Diagramação e Assistente de Revisão: Víktor Waewell
Arquivo e memória: Gyuliana Duarte
Planejamento: Pedro Gondim
Colaboradores para esta edição: André Ferraz, Cidres Lópes, Fábio Dias, Germán Milich e Izabella Marcatti Camisasca Textos Utilizados: Trecho de “O Profeta”, de Khalil Gibran; “Primeiros Desenganos”, de Alejandro Dolina; “A Função da Arte/1” e “Mão de Obra”, de Eduardo Galeano; “Declaração Universal dos Direitos das Crianças”, Unicef; “O Espetáculo para Crianças”, de Pierre Leenhardt.

1° Princípio




“Direito à igualdade, sem distinção de raça religião ou nacionalidade”




A criança desfrutará de todos os direitos enunciados nesta Declaração. Estes direitos serão outorgados a todas as crianças, sem qualquer exceção, distinção ou discriminação por motivos de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de outra natureza, nacionalidade ou origem social, posição econômica, nascimento ou outra condição, seja inerente à própria criança ou à sua família.

Poema de Khalil Gibran, do livro “O Profeta”

“Uma mulher que carregava o filho nos braços disse:
‘Fala-nos dos filhos’.
E o profeta falou:
Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,mas não vossos pensamentos,porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;pois suas almas moram na mansão do amanhã,que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e o estica com toda a sua forçapara que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão de Arqueiro seja vossa alegria.
Pois assim como o Arqueiro ama a flecha que voa,ama também o arco que permanece estável.”

A INFÂNCIA E O TEATRO INFANTIL Parte I

por André Ferraz
1. Idéias de Infâncias
A “infância” é uma categoria social que vem ganhando contornos e espaços diferentes ao longo dos séculos nas sociedades organizadas do mundo inteiro. Em sociedades da Europa da Idade Média, por exemplo, não havia grandes distinções sobre espaços públicos para crianças e sua educação era responsabilidade dos pais (geralmente das mães) e das demais pessoas que conviviam com elas. Não havia escolas nem áreas públicas dedicadas às diferentes faixas etárias que observassem as necessidades específicas de fruição e atividades sócio-culturais. Os trabalhos e divertimentos não tinham maiores especificidades no quesito “faixa etária”, e mesmo para aqueles que continham necessidades específicas relativas a força física ou a conteúdos de interesses mais “adultos” (como divertimentos sexuais, jogos de azar, lutas etc.) não havia algo que impedisse que crianças participassem dessas atividades, caso elas conseguissem executar tais tarefas, evidentemente. Inclusive, a idéia de divisões de fases era algo em que não se pensava na época. Por exemplo, não havia na língua francesa, até o século XVIII, termos que diferenciasse a infância da adolescência ou da juventude, como lembra Rinaldo Segundo, em seu artigo “A invenção da infância”:A palavra "enfant" (criança) representava, ambos, crianças ou rapazes. Isso pode ser explicado: não era o critério biológico que distinguia as pessoas, sendo que "ninguém teria a idéia de limitar a infância pela ‘puberdade’..." (ARIÈS, 1981, p. 42). A dependência econômica marcava a idéia de infância: "Só se saía da infância ao se sair da dependência" (idem). Daí a explicação à algumas imagens e relatos do século XVI, segundo os quais, aos 24 anos, a criança é forte e virtuosa. Em outras sociedades até mais antigas, como a chinesa ou a grega, por exemplo, existia a figura do mestre ou preceptor, ou seja, alguém que cuidava para que a criança aprendesse conteúdos e atividades que as fizessem úteis à sociedade. Evidentemente eram poucos (só os filhos de pessoas de posse e/ou importância) que tinham essa “especificidade” de atenção, pois a grande maioria vivia no meio dos adultos sem maiores “atenções especiais” além da educação familiar, como aprender o ofício dos pais para poderem continuar sobrevivendo, por exemplo. É importante frisar que, mesmo na China ou na Grécia antiga, não havia atividades de divertimento especificamente infantis, o que também não significa que não houvesse certas atividades que recebiam um público maior de crianças, como as apresentações de bonecos populares chineses (por volta do século III a.C.) ou a comédias farsescas gregas (século V a.C.).É certo que, em qualquer período, qualquer atividade artística pode cair no gosto de crianças, independente do interesse inicial do artista realizador da obra, por alguma característica involuntária, principalmente pelo fato de que não existe uma “criança ideal”, e sim crianças, todas com suas particularidades específicas. Cada pessoa, independente da faixa etária, tem características e gostos pessoais diferentes por diversos motivos: sociais, culturais, relacionais etc. No entanto, existem fatores que diferenciam diversos grupos sociais que são separadas por vários fatores e a idade é uma delas.Na sociedade européia ocidental, no período do renascimento, quando a cultura passou a ser menos da igreja e um pouco mais da sociedade civil, tentativas de especificar atitudes frente às crianças tornavam-se mais urgentes, até mesmo para limitar o espaço da criança no “mundo adulto” e também educar esse ser que era visto mais como um “futuro adulto” do que como pessoa em si. É nessa situação que os tratados sobre a educação da puerícia (infância) começam a aparecer. O historiador francês Philippe Ariès (1914-1984), em seu livro “História Social da Criança e da Família”, de 1960 (editado no Brasil pela LTC), faz um panorama de alguns desses tratados e de que como era vista a infância na Europa (especificamente na França) na Idade Média - sem maiores distinções entre a infância e a idade adulta - e a partir do final do século XVI – quando a necessidade de uma educação burguesa se fazia cada vez mais presente para a manutenção do estado de dominação da civilização européia ocidental. Ariès foi a grande referência de um novo campo historiográfico, que ficou conhecido como “história da infância” e gerou diversos trabalhos posteriores de outros estudiosos dessa área, pois, além de trazer à tona uma discussão sobre a história da infância na Europa – desde a Idade Média, passando pelos tratados filosóficos e manuais de educação e etiqueta da infância (séculos XVI a XVIII) até os estudos do século XIX e princípio do XX – ele cria uma base na qual historiadores, psicólogos, sociólogos e educadores irão se apoiar (inclusive os críticos) para pensar a infância contemporânea.Nos fazeres e na fruição artística também não é diferente. Cada vez mais vemos discussões sobre o que seria adequado ou não para as “crianças”. As tentativas de compreender as fases do desenvolvimento mental e emocional de crianças e adolescentes - que tem, como maiores contribuições, os estudos do suíço Jean Piaget (1896-1980) e do russo Lev Semyonovich Vygotsky (1896-1934) - é também resultado de uma tentativa ainda maior: a de compreender a nós mesmos como seres humanos mutáveis que têm âmbitos internos (estruturas psíquicas existentes no sujeito) e externos (relações sociais) em constante movimento recíproco.Mas é sempre bom lembrar que nem sempre a nossa visão - de adultos observadores também múltiplos - é suficiente para compreender a pluralidade de fatores que complicam as tentativas de análises unificadoras que buscam simplificar a realidade. Cabe a nós tentar entender - para fins didáticos e como “observadores múltiplos” que somos - alguns fatores que permeiam a fruição de crianças, nas diversas faixas etárias, de uma forma geral, mas sempre entendendo que os fatores específicos existem e devem ser levados sempre em consideração.

2° Princípio




“Direito a especial proteção para o seu desenvolvimento físico, mental e social”






A criança gozará de proteção especial e disporá de oportunidade e serviços, a serem estabelecidos em lei por outros meios, de modo que possa desenvolver-se física, mental, moral, espiritual e socialmente de forma saudável e normal, assim como em condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a consideração fundamental a que se atenderá será o interesse superior da criança.

QUANDO O CIRCO PEDE SORRISO PARA FAZER RIR

por Viktor Waewell
Você se coloca em posição de decidir o que vai fazer do seu dia. A coisa é simples, liga pra turma e diz que tá afim de ir ao circo. Encontra-se num bar, toma umas e sorri. Digo, divide a conta. Ou pede fiado.E viva o seu time de futebol, e vaia os políticos, e que vivam as mulheres bonitas. Assunto normal, da dia-a-dia, um fazendo graça pro outro. Os mais íntimos a conhecem como “conversa de bar”.De acordo com o programa da apresentação, o malabarista cospe fogo. Neste momento, você percebe que existe urgência em devolver ao mundo a cerveja que bebera. A vida é cheia de urgências. Algo parecido com uma garota de camisola te esperando na cama.Os palhaços conversam fiado e as crianças riem das cores. Os adultos... bem, é o fim da picada alguém não estar sempre sorrindo numa hora dessas. E os contorcionistas revelam-se fortes, carregando uns aos outros de um lado para o outro.Do lado de fora do circo, tem uma pessoa na bilheteria contratada especificamente para vender os ingressos. E tem o cara da entrada pra receber o ingresso e deixar a pessoa entrar no circo. Se a pessoa entrega o ingresso anteriormente comprado, ela entra. Se não entrega, não sorri.Boteco é coisa de gente grande. Uma branquinha ajuda. O tira-gosto é igual dinheiro, cada um tem o seu. A pausa é que é universal. Pausa para ir ao banheiro.O espetáculo já caminhava para o fim, quando a luz negra chapada tomaria conta do picadeiro. E as pessoas continuariam sorrindo. A cerveja é que agradecia, ou o que sobrou dela pedindo pra ser devolvida ao mundo com urgência. Você sorri e se levanta do boteco. A turma é boa. Um belo programa pra fazer num dia, ir ao circo. Entrar nele meio chapado. O preto chapado do picadeiro se torna uma sucessão de cores e de sorrisos, desde que você tenha os meios para sorrir.Como o boteco era bem ali - e os políticos e o futebol e as mulheres bonitas continuariam, respectivamente, no outro lado da televisão, nos belos gramados e em suas perfumadas camas - a boa turma caminha até o circo. Um garoto pede com aquele sorriso sem graça um trocado pra dar à pessoa especificamente contratada para vender ingressos. Não está sozinho, a turma está ali pedindo um trocado com urgência. Não tem como falar fiado: estão bem alimentados e não incomoda o frio, bastaria um pouco de sorriso.Quando o circo se fecha, você sorri satisfeito e vai embora. Pesa-lhe o fato de as mulheres bonitas estarem todas dormindo em suas respectivas camas perfumadas. Na porta do circo, o que ele fez foi comprar o ingresso e entrar para sorrir. Quanto à criança que pede... torna a pausa inevitável.

Mão de Obra

por Eduardo Galeano
Mohammed Ashraf não vai à escola.Desde que o sol sai até que aparece a lua, ele corta, recorta, fura, arma e costura bolas de futebol, que saem rodando da aldeia paquistanesa de Umar Kot para os estádios do mundo.Mohammed tem onze anos. Faz isto desde os cinco.Se soubesse ler, e ler em inglês, poderia compreender o texto que ele cola em cada uma de suas obras. "Esta bola não tem sido fabricada por crianças".

3° Princípio


“Direito a um nome e a uma nacionalidade”

A criança tem direito, desde o seu nascimento, a um nome e a uma nacionalidade.

A Função da Arte/1

por Eduardo Galeano
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!

PRIMEIROS DESENGANOS

por Alejandro Dolina


Anos atrás um poeta chamado Manuel Mandeb enviou para a Secretaria de Cultura de seu país um projeto de livro didático para usar na primeira série. O nome desse livro prometia um universo onde a criança tivesse contato com os principais problemas metafísicos da humanidade: “Primeiros Desenganos”. Muitos educadores têm falado que “Primeiros Desenganos” carecia de propósitos pedagógicos. Isso é falso. Em muitas de suas páginas se promove a admiração de certas condutas. Acontece que tais condutas são precisamente aquelas que são repudiadas pelos livros infantis convencionais. Elogia-se matar aula, despreza-se a aplicação, duvida-se da higiene e se celebram as desordens. Tem contos, poesias, notas e canções, entre as que surpreendem, o sambinha “Se cobra e me traz o troco”. Vamos transcrever alguns textos.

4° Princípio:











“Direito à alimentação, moradia e assistência médica adequadas para a criança e a mãe”




A criança deve gozar dos benefícios da previdência social. Terá direito a crescer e desenvolver-se em boa saúde; para essa finalidade deverão ser proporcionados, tanto a ela, quanto à sua mãe, cuidados especiais, incluindo-se a alimentação pré e pós-natal. A criança terá direito a desfrutar de alimentação, moradia, lazer e serviços médicos adequados.

A INFÂNCIA E O TEATRO INFANTIL parte II

por André Ferraz


2. Aspectos sobre o gênero “Teatro Infantil”

Existem certos aspectos que são comuns em quase todos os espetáculos infantis, a saber: duração aproximadamente de 40 a 50 minutos; linguagem corporal ágil e estilizada, com jogos de cena geralmente lúdicos; textos falados relativamente curtos em relação ao texto cênico total da peça; humor sempre presente, mesmo em temas dramáticos; músicas pontuando grande parte das cenas; figurinos e cenografia estilizados e coloridos; e em caso de palco à italiana, iluminação bastante colorida (poucos jogos de claro e escuro, com raras exceções). Ou seja, existem características específicas na produção do teatro infantil contemporâneo que o senso comum reconhece como sendo próprios de uma linguagem adequada para as crianças. O que, obviamente, não significa dizer que espetáculos que não se enquadrem nessas características não agradem a determinadas faixas etárias. Além disso, os aspectos que concernem à atuação cênica é, em muitos casos, movidas por paradigmas de caricaturas e estilizações de um universo pseudo-infantil que nem sempre tem a ver com o universo diegético acionado pela peça.O teatro infantil não é igual ao teatro adulto, pois ele tem especificidades de execução, mas ele tem que ser realizado com igual competência, isso sim. O curioso é perceber que, mesmo seguindo - ou não - uma certa lógica constante a respeito desses aspectos anteriormente citados, isso não garante o sucesso (nem mesmo o fracasso) de uma peça infantil. Segundo Paulo Freire, famoso pedagogo brasileiro, o educador tem que travar um diálogo com seu aluno e que isso seja através do coração (afeto), ao invés de “depositar” conhecimentos estéreis em suas cabeças “neutras”, até porque não existem cabeças neutras - nem tampouco crianças neutras. Talvez esteja aí o mais poderoso “aspecto” do teatro infantil: a relação dialógica entre ator e público pautada no afeto. Todos os jogos lúdicos, cores, musicalidade, humor e sagacidade do texto falado e cênico só funcionam se o ator souber utilizar isso em prol de um diálogo orgânico e verdadeiro com seu público. Para tanto, certas especificidades de recepção das crianças têm de ser levadas em questão, como, por exemplo, a relação com estruturas concretas de linguagem e as diferenças de ordem culturais, sociais, econômicas e relacionais. Não que os atores têm que fazer um espetáculo diferente para cada criança, mas, quando o diálogo realmente existe, a relação ator/adulto e espectador/criança necessita de cuidados específicos e os atores têm que saber lidar com isso.

PRIMEIROS DESENGANOS

por Alejandro Dolina


Lição 8 Os Deveres de Pedro

Pedro senta nas últimas cadeiras da sala, como corresponde a uma criança que rejeita a educação e a proximidade dos poderosos. As conspirações dos “baixos fundos” nunca o acham alheio. Procura o risco das transgressões e a companhia dos mais beligerantes. Têm vezes que é tentado pelo estudo e a inteligência. Então, como quem aceita um desafio, encara o destino e resolve difíceis problemas de regra de três e faz os ditados sem nenhum tropeço. Um dia a professora acaricia–lhe o cabelo e ele pensa: “Ai, professora, se soubesse como gostaria de da-lhe uma flor e um beijo”. Mas Pedro sabe quem é e conhece seu dever e seu destino. Com um drible se distancia do afeto inoportuno e vai procurar a glória lá no fundo, onde os malandros capricham rebolando tinteiros para que se cumpra melhor o divino propósito do Universo.

5°Princípio




“Direito à educação e a cuidados especiais para a crianças física ou mentalmente deficientes”


A criança física ou mentalmente deficiente ou aquela que sofre da algum impedimento social deve receber o tratamento, a educação e os cuidados especiais que requeira o seu caso particular.

PRIMEIROS DESENGANOS

por Alejandro Dolina

Lição 23 As Crianças Precoces
Algumas crianças dão fruto cedo, não nego. Seus pais se orgulham e os exibem entre seus familiares e conhecidos, até no cinema e na televisão.Me atrevo a pensar – porem – que não toda precocidade é um bom augúrio. Empecemos por dizer que existem adultos bondosos, agudos, valorosos o geniais. E também existem adultos medíocres, hipócritas, pomposas e canalhas. A criança precoce recebe a visita antecipada de alguns rasgos da “adultez”.Alguns tocam piano como experts profissionais, outros aprendem línguas, desenham ou possuem a ciência. Mas há crianças cuja precocidade consiste em adquirir antes de tempo o tom vazio e protocolar das conversas de sala de espera, e aprendem aos seis anos a filosofia dos tolos satisfeitos. Também repetem a linguagem das revistas e fazem suas as respostas das matérias mais vulgares. Lógico que tem muitas pessoas que acham que isso é a sabedoria, mas eu digo que mais sábias são as crianças que observam com repugnância os diálogos dos parentes bem-educados. Tomara que surjam muitas crianças prodígio que se apropriem do gênio com impaciência. Mas para ser um imbecil acho que ninguém tem pressa.

A INFÂNCIA E O TEATRO INFANTIL Parte III

por André Ferraz
3. A Análise Ativa como um caminho possível para o ator no Teatro Infantil
Uma possibilidade para lidar com a especificidade na atuação para o Teatro Infantil é trabalhar, desde a gênese do espetáculo, com exercícios de improvisação com base nas ações físicas e verbais construídas a partir de estudos detalhados da história a ser encenada, criando, com isso, maior organicidade no jogo cênico. Existem diversos “métodos” possíveis para alcançar tal propósito, mas o mais importante é descobrir o que toca de verdade os criadores que irão trabalhar com esses métodos. A Análise Ativa – método criado pelo diretor e teatrólogo russo Constantin Stanislavski - apresenta-se como um das propostas possíveis para alcançar essa relação orgânica com o texto cênico e falado e, conseqüentemente, com o público.A busca da “verdade” sempre impulsionou Stanislavski e isso o fez navegar por mares teatrais bastante diferentes. Na Análise Ativa o ator busca, a partir de si mesmo (sem construções prévias), os entendimentos pessoais (próprios do ator) do corpo, mente e espírito da personagem e das relações que ela trava ao longo da peça. Cuida-se para que o ator não decore o texto falado antes de ter esse entendimento, evitando criar uma relação distante, inorgânica, ou seja, uma relação falsa com os textos e ações da personagem. Stanislavski lembra que o ator precisa trabalhar a partir de “pequenos objetivos físicos que você pode fazer sinceramente, verdadeiramente, e em seu próprio nome”. A utilização de alguns procedimentos da Análise Ativa, como as “circunstâncias dadas”, a “adaptação”, a “comunhão” e a relação “intenção-objetivo” dão ao ator uma base concreta para que ele se relacione com o texto (falado e cênico) de uma forma mais orgânica e verdadeira, criando uma conexão real com o universo diegético (fictício) da peça.No teatro infantil isso passa a ser fundamental, pois é tentador realizar caricaturas - perigosamente inorgânicas – quando o universo diegético é extremamente lúdico e fora da realidade. Sendo assim, a “verdade cênica” é conseguida através dessa conexão que o ator cria com esse universo na prática dos ensaios, trabalhando com objetos claros e concretos, como se esse universo fosse real e possível, fugindo urgentemente dos clichês do gênero, como a infantilização das personagens e o excesso de ilustração desnecessária.

6° Princípio


“Direito ao amor e à compreensão por parte dos pais e da sociedade”

A criança necessita de amor e compreensão, para o desenvolvimento pleno e harmonioso de sua personalidade; sempre que possível, deverá crescer com o amparo e sob a responsabilidade de seus pais, mas, em qualquer caso, em um ambiente de afeto e segurança moral e material; salvo circunstâncias excepcionais, não se deverá separar a criança de tenra idade de sua mãe. A sociedade e as autoridades públicas terão a obrigação de cuidar especialmente do menor abandonado ou daqueles que careçam de meios adequados de subsistência. Convém que se concedam subsídios governamentais, ou de outra espécie, para a manutenção dos filhos de famílias numerosas.

A CASINHA DA ÁRVORE À JAULINHA DO ZOOLÓGICO

Por Cidres Lopes


É interessante o universo das crianças, elas vivem sem se preocupar com seus direitos, na verdade, cuidar dos direitos das crianças é um dos deveres do adulto (se é que ainda existem adultos). Sei lá. Prossigamos a prosa, o “10° Princípio da Declaração dos Direitos da Criança” diz que “elas têm direito a proteção contra atos que possam causar discriminação racial, religiosa ou de qualquer outra natureza” (reparem que todas essas coisas são causadas pelo homem, o mesmo que faz a lei e que esquece de cumpri-la). “E que a criança deve ser criada em um ambiente de compreensão, de tolerância, de amizade entre os povos, de paz, de fraternidade universal e em plena consciência, que seu esforço e aptidão devem ser postos a serviço de seus semelhantes”.Dizem que a lei - seja ela como tratado, como normativa interna ou declaração universal - é cega. Porque ela não vê as diferenças na hora de ser aplicada. Pelo menos isso seria o ideal, quando existe a possibilidade de ser aplicada. Mas devemos reconhecer que a lei humana não é a mesma em todas partes. Poderíamos dizer que isso é um assunto de geografia. Ela não enxerga a cor, raça e religião, todos são iguais. Só que para alguns juizes, advogados e legisladores, uns são mais iguais que outros.E, refletindo sobre essas coisas, me lembrei de uma história que serve para ilustrar, ou pelo menos espero que sirva:Um filhote de camelo virou para sua mãe e perguntou:- Mamãe, por que temos essas duas corcovas em nossas costas?Então, sua mãe lhe respondeu:- Elas servem de reservas de água. Porque, como água é muito difícil no deserto usamos a que guardamos em nossas corcovas.- E por que nossas patas são tão largas? Perguntou novamente.- É para dar maior estabilidade quando caminhamos naquela imensidão de areia. Então, não afundamos nos buracos que surgem na areia quando vêm os ventos fortes.- Ah, tá! E, por que nossos cílios são tão grandes, mamãe?- Meu filho, muitos grãos de areia batem em nosso rosto, mas nossos cílios impedem que eles entrem em nossos olhos.- Mas mamãe - hesitou o pequeno camelo - se nossas corcovas servem para reservar água enquanto estamos no meio do deserto; nossas patas servem para dar maior estabilidade ao caminhar naquela imensidão de areia; e se nossos imensos cílios servem para impedir que areias trazidas pelo vento entrem em nossos olhos enquanto caminhamos no deserto, por que vivemos neste zoológico? Conclusão como essa qualquer um de nós seria capaz de tirar. Temos nossas leis, nossos direitos, mas estamos presos em uma jaula de zoológico.Bem, tenho dois sobrinhos que moram em um apartamento. E, neste apartamento, existe uma área onde eles podem andar de velotrol, jogar bola, enfim, podem brincar. Na verdade, essa área de lazer é a garagem, mas tudo bem. Lá é rodeado daquela cerca elétrica de mais de não sei quantos milhões de volts. E nos portões existem cadeados. Tudo isso para que não entrem ladrões no condomínio e para que, não só meus sobrinhos, mas todas as crianças e adultos que moram lá, estejam protegidos, livres de roubos etc. Mas podemos afirmar que eles estão livres, sendo que estão cercados por cadeados e cercas? Interessante esse conceito de liberdade. É como se meus sobrinhos e todas as outras crianças fossem condenadas e presas. Qual será o crime que eles cometeram? Por outro lado, os ladrões, melhor, furtadores de utensílio de pequeno porte (não sei se você sabe, mas, hoje em dia, temos que identificar a posição que eles ocupam na hierarquia gatuna) que também estão presos em um ambiente onde a justiça é o chamado “olho por olho e dente por dente”. Há em nosso meio o mal de Adão e Eva, onde um joga a culpa no outro. Quem é roubado diz que a culpa é do governo, que lugar de bandido é na cadeia e que a polícia não prende quem rouba. Já quem furta, diz que não teve oportunidade de estudo, trabalho... pelo menos alguns, porque outros... deixa pra lá... enfim, cada qual com seu pretexto. É uma outra jaula, porém, tudo no mesmo zoológico. Estamos com pedras na mão esperando quem vai ser o primeiro a atirá-la nos “culpados”. Mas, nessa famigerada cadeia, de quem é a culpa? Melhor seria se dividíssemos as fatias do bolo em partes iguais. Todos temos nossa parcela de culpa.Por vezes eu me pergunto: nossa lei serve para fazer algo contra as coisas que ela mesmo condena? Ou é como a braçada desesperada de quem está prestes a afogar, tentando pegar algo que o aferre a realidade? Como poderemos ter a fraternidade universal “garantida” pelo “10° Princípio dos Direitos Infantis”? Levaremos a declaração escrita no uniforme de militares traduzida na língua do país infrator? Ou nos caixões diferenciados por palavras gélidas, tais como “soldado”, “civil” ou “criança”? E quando essa guerra acabar haverá paz? Imagine... uma criança morava num país com seus pais, irmãos, amigos... sua cultura e seus sonhos. Vieram então o “exército da paz”, pertencente a outro país. Eles, “os da paz”, derrubaram o terrível ditador que governava a nação desta criança. Mas, infelizmente, na tomada da cidade onde ela morava, por parte das forças militares, vários civis foram mortos. Entre eles, a mãe e o pai dessa criança. E agora, graças ao “exército da paz”, ela vive feliz em um país sem ditadura... sem cultura... sem mãe e sem pai. Como “os da paz” mesmo dizem, hoje ela está “totalmente livre” pra fazer o que quiser de sua nova vida. Mas a guerra tem muitas caras... e aqui estamos com a nossa... a guerra cotidiana.Além disso, está escrito nesse direito que a criança tem proteção a atos que possam causar discriminação racial, religiosa e de qualquer outra natureza. Se não consigo compreender por que crianças palestinas e judias herdam o ódio entre elas, menos ainda compreendo como isso pode acontecer no meu próprio país, na minha cidade e no meu próprio bairro. Educar uma criança é dar noções para construir um futuro, ferramentas que precisam de uma estrutura ética e filosófica. É ter compromisso com seus direitos... é contribuir para o bem comum da sociedade. Acho que o maior problema das crianças é a infantilidade dos adultos, que se medem por bombas que abrem mercados de interesses e custos humanos para a procurada liberdade.Sobretudo, a conclusão é que tiramos nossas crianças da casinha da árvore e às levamos para a jaulinha do zoológico. Essa que temos construído é a sociedade de nossos sonhos? Com uma série de grades e gaiolas onde usufruímos a vida, num jardim exótico, variado, cheio de espécimes, onde uma classe toma conta da cidade de 7 da manhã às 18 horas e depois ela se tranca em sua confortável gaiola, antes que a noite se apodere das ruas. Na África, por exemplo, mais de 120 mil crianças participam de lutas armadas. Na Libéria e Uganda, Charles Taylor, ex-presidente da Libéria, criou no ano de 1989 o chamado “exército infantil”. Ele forçou crianças a cometerem atrocidades contra seus próprios pais e amigos. As usou para roubar munição e alimentos de países vizinhos e tentou tomar campos de diamante de Serra Leoa, um país vizinho. Esse “exército infantil” já matou mais de 200 mil pessoas. Os menores “soldados” desse exército têm apenas sete anos de idade. Essas crianças nada sabem de declarações nem sobre muitas coisas que a gente fala todo dia. Porém, pressinto que gostariam de brincar em qualquer área de lazer, por menor que seja. Sem ligar para as grades nem para as gaiolas. Descansando do estrondo do bombardeio e do palavreio das conferências sobre direitos das crianças. Ninguém é suficientemente adulto para brincar de guerra: é uma brincadeira muito sem graça.Sabe, tenho saudades da época em que eu acreditava, acreditava mesmo, sem sombra de dúvidas, que meu pai era o homem mais forte do mundo, que minha mãe era uma rainha e que meus irmãos seriam para sempre meus cúmplices em qualquer aventura. E saudade, de como adulto, de ter o direito de ser criança... livre deste casulo envelhecido chamado maturidade.

7° Princípio






“Direito á educação gratuita e ao lazer infantil”
A criança tem direito a receber educação escolar, a qual será gratuita e obrigatória, ao menos nas etapas elementares. Dar-se-á à criança uma educação que favoreça sua cultura geral e lhe permita - em condições de igualdade de oportunidades - desenvolver suas aptidões e sua individualidade, seu senso de responsabilidade social e moral. Chegando a ser um membro útil à sociedade.O interesse superior da criança deverá ser o interesse diretor daqueles que têm a responsabilidade por sua educação e orientação; tal responsabilidade incumbe, em primeira instância, a seus pais.A criança deve desfrutar plenamente de jogos e brincadeiras os quais deverão estar dirigidos para educação; a sociedade e as autoridades públicas se esforçarão para promover o exercício deste direito.

QUEM SOMOS?

Um Conto de Fábio Dias




Era um senhor rico, de cabelos alvos, costeleta bem feita e olhos azuis. Apesar de possuir muitas rugas no rosto não era velho, aproximava-se dos seus 50 anos. Pensava já ter passado por quase tudo nessa vida. Vivia feliz com a sua esposa e filho em uma confortável casa de dois andares, de onde se podia observar todo o canavial e o belo crepúsculo atrás das montanhas.Nesta noite acordara com um sobressalto. Tivera um pesadelo. Correu até a cozinha, pegou um pouco de chá de jasmim e sentou-se em sua rede na sacada do segundo andar. A lua brilhava prata no céu. Às duas horas da manhã, a noite apresentava um brilho de seis e meia da noite. Sua vida feliz, confortável e bem-sucedida, escondia um passado miserável em frente a fornos de carvão. Começara a trabalhar aos quatros anos de idade para ajudar a velha mãe viúva, da qual se lembra apenas de uma sombra de cabelos grisalhos, com mãos magras, poucos dentes na boca e um perfume de pinho queimado. Tivera pouco contato com essa senhora que veio a falecer antes mesmo de sua primeira cicatriz causada por um forno que desmoronou sobre si, durante uma madrugada como esta em que acabara de acordar.– Tudo bem com você, meu amor - sussurrou uma voz doce da cama do quarto que se adentrava a sacada.– Está sim - respondeu trêmulo. Na verdade, vagava em sua cabeça todos esses fantasmas. Queria um abraço apertado que lhe faltara em sua infância, ou melhor, quando tinha pouca idade.– Já estou indo pra cama - falou novamente. Foram as únicas palavras que conseguiu pronunciar depois. No raiar do dia, ainda meio zonzo, tomou café e se apressou para verificar o andamento das atividades no canavial. Seu filho, que tinha já doze anos, em um pulo só pediu para acompanhá-lo, no que ele respondeu:– Não, lá não é lugar para um menino como você - foi a resposta áspera que ele deu, saindo em seguida para o canavial.Sem entender porque nunca pôde se aproximar do canavial, o garoto resmungou com a mãe, que reafirmou a ordem do pai e logo depois se ocupou com os afazeres da casa.Imaginem um pré-adolescente de doze anos, saudável, agitado e como uma curiosidade na cabeça. Sem hesitar, seguiu o pai sem deixá-lo percebê-lo.Ao passar pela velha porteira, viu seu pai entrando em uma cabana velha infestada de teias de aranhas. Por um buraco do lado de fora conseguia vê-lo lá dentro. Deparou-se com uma cena que não entendia. O pai conversava com os empregados, mas no meio dos adultos várias crianças com lenços na cabeça e facão na mão; uns menores até mesmo que as pesadas armas que usavam em sua jornada árida de trabalho na fazenda. Na boca de seu pai um discurso efervescente. “Sou filho desta terra como vocês, como vocês eu comecei e olhem onde estou. O trabalho enobrece o homem, quanto mais vocês produzirem, mais rápidos chegarão a ser o que sou hoje. Pois tudo o que tenho devo ao trabalho duro que tive a vida inteira”. Esquecera apenas de falar que aos doze anos de idade, a mesma idade de seu filho, a fazenda da qual era “escravo” foi desmanchada por uma operação policial, e que após isso passou mais seis anos em orfanatos e reformatórios, e que aos vinte anos, num golpe de sorte, ganhara um dinheiro numa lotérica e a partir daí investiu o ganho em mão de obra barata para construir o seu pequeno “império”.O menino se viu diante do pai e se assustou derrubando latas de querosene que estavam ao seu lado. O pai o surpreendeu e enxergou nos olhos de seu menino assustado a decepção.Não era o sono que o perturbava e não o deixava dormir, era apenas ele mesmo.

Celebração da Fantasia

por Eduardo Galeano
Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu tinha me soltado de um grupo de turistas e estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, chegou perto para me pedir que desse a ele de presente um caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava usando-a para fazer sei lá que anotações, mas me ofereci para desenhar um porquinho em sua mão.Subitamente, correu a notícia. E de repente me vi cercado por um enxame de meninos que exigiam, aos berros, que eu desenhasse em suas mãozinhas rachadas de sujeira e frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos ou corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão.E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra em seu pulso:– Quem mandou o relógio foi um tio meu que mora em Lima - disse.– E funciona direito? - perguntei.– Atrasa um pouco - reconheceu.

8° Princípio:


Direito a ser socorrido em primeiro lugar, em caso de catástrofes


A criança deve - em todas as circunstâncias - figurar entre os primeiros a receber proteção e auxílio.

A PRIVATIZAÇÃO DO TEATRO INFANTIL

por Germán Milich




A Privatização não da para enxergar nem encostar e muitas vezes não fica claro falando assim tão tecnicamente: o quê é “privatizar o Teatro Infantil”? Como é isso possível? Primeiro temos de ir ao início do assunto, talvez não seja um mau negócio montar uma peça...
1 Introdução
Nestas épocas de pouca fé, a montanha não vai a Maomé, os pães e os peixes não se multiplicam e o único milagre que existe é o de transformar qualquer necessidade em produto. A educação, por exemplo, pode ser um direito ou um produto. A diferença é subjetiva, se o sujeito não pode pagar é um direito; se o sujeito pode pagar é um produto. Com certeza você sabe que existem escolas que tomam conta da formação de crianças que têm a possibilidade de pagar uma mensalidade, porque é muito provável que você seja uma das pessoas que manda seu filho a um colégio particular. É ou não é? Então com certeza também sabe que temos dois tipos de ensino: um chamado de “Público”, que atende um direito postulado no Artigo 6 da Constituição e que é gratuito; e outro chamado de “Privado”, que presta um serviço terceirizado e que não é de graça “de com força”. Para o cidadão comum, seja taxista, açougueiro, ator ou advogado, não parece ser muito importante se uma criança tem contato ou não com manifestações artísticos-culturais. Isso fica longe da vida, lá no escritório do assessor pedagógico que, quando é de Escola Pública, faz magia para levar pelo menos um artista por ano e, quando é de Colégio Particular, cobra uma alíquota de 5% por aluno sobre o valor mensal por conceito de “Atividade Cultural”. Além do que, têm coisas de maior prioridade. É claro que a idéia não é criticar os Colégios Particulares, sempre é bom saber que existem lugares onde as crianças possam brincar enquanto aprendem outras línguas, natação, ballet, judô e tantas outras coisas. E também porque são os principais compradores das peças de teatro infantil. Sim, temos que ser sinceros, esses colégios dão uma importância enorme à cultura. Da mesma forma que os paises desenvolvidos, eles investem grana em contratar peças e professores, pois sabem que a cultura faz a diferença na hora de exercer a liberdade e o poder.
2. Como Isso Influi no Teatro Infantil?
A arte também não escapa a essa regra, pois é uma das principais necessidades humanas, o ser humano se expressa através da arte desde muito antes das primeiras pinturas rupestres, portanto é um importante diferencial na hora de escolher um colégio. Esta acompanhando? Claro, porque eu não falei ainda do teatro da ótica dos que produzem peças para colégios. Tá ligado?A prática do ensino desenvolvida pela iniciativa privada de alguma forma modificou a “classe artística”, que encontrou uma fonte de renda maior e mais estável que a renda oferecida pelos incentivos do Poder Público e, por que não dizer, mais rápida em concretizar o cachê. Sacou? A educação: é, sem dúvidas, a prioridade de todo discurso político, de toda promessa pré–eleitoral, está na boca de todo cidadão que se auto-define “do bem”, e nós artistas lutamos por ela. Papo furado. Falar de educação é bom porque faz com que nos sintamos melhores pessoas. Mas vamos fazer um exercício: coloque a mão no coração, confira que não tenha ninguém por perto para não se sentir intimidado e (agora é o mais difícil) pergunte-se se realmente se importa com a situação da educação pública.A questão é sempre a que não aparece na estatística: O Teatro Infantil cobra Ingresso e uma assustadora quantidade de crianças não podem comprar. A estas crianças estamos negando o direito de imaginar uma vida na qual possam ser outra coisa fora do que o mercado ou a sobrevivência manda.
3. Agora é que Começa
Da mesma forma que a renda, o alimento, as oportunidades etc., a produção de teatro infantil tem diferenças na hora da distribuição. Felizmente, nós artistas não somos um pessoal motivado pelo lucro. Pelo menos isso foi assim numa época. Ou talvez foi um conto de fadas. O certo é que o “público alvo” são crianças de qualquer dos dois ensinos, mas o ensino Privado tem muito mais acesso a manifestações artísticos-culturais que o ensino Público. Não temos compreendido ainda que precisamos ser melhores, precisamos criar um teatro orientado para as crianças que seja mais que uma mera fonte de renda. Acredito que podemos criar uma forma de produção que não se baseie só em subsídios e que seja de qualidade artística e pedagógica para levar às Escolas Públicas. Não é fácil, mas é muito possível. A classe artística ainda não consegue acompanhar a história na velocidade que precisa. Estamos pesados, somos uma turma gordinha e enferrujada correndo atrás da nova utopia chamada lei de incentivo.
Como é que fica então? O que faremos? E o mais importante, realmente nos importa o assunto? A mentira se estabeleceu como um formulário mais a preencher no caminho e talvez como bons imitadores, nós artistas estamos aprendendo com os políticos a dizer bonito e fazer pouco, e nessa vamos aceitando propinas e manifestando sentir pena pela criançada em geral sem conseguir ver o moleque que num canto da solidão começa a planejar sua vingança.

A ARTE PARA AS CRIANÇAS

por Eduardo Galeano



Ela estava sentada numa cadeira alta, na frente de um prato de sopa que chegava à altura de seus olhos. Tinha o nariz enrugado e os dentes apertados e os braços cruzados. A mãe pediu ajuda:– Conta uma história para ela, Onélio - pediu. – Conta, você que é escritor...E Onélio Jorge Cardoso, esgrimindo a colher de sopa, fez seu conto: – Era uma vez um passarinho que não queria comer a comidinha. O passarinho tinha o biquinho fechadinho, fechadinho e a mãezinha dizia: “Você vai ficar anãozinho, passarinho, se não comer a comidinha”. Mas o passarinho não ouvia a mãezinha e não abria o biquinho...E então a menina interrompeu:– Que passarinho de merdinha – opinou.

9° Princípio:




“Direito a ser protegido contra o abandono e a exploração no trabalho”- A criança deve ser protegida contra toda forma de abandono, crueldade e exploração. Não será objeto de nenhum tipo de tráfico.Não se deverá permitir que a criança trabalhe antes de uma idade mínima adequada; em caso algum será permitido que a criança dedique-se, ou a ela se imponha, qualquer ocupação ou emprego que possa prejudicar sua saúde ou sua educação, ou impedir seu desenvolvimento físico, mental ou moral.



O ESPETÁCULO PARA CRIANÇAS*

(de Pierre Leenhardt)
*(Cápitulo VII do livro “A criança e a expressão dramática”. Tradução portuguesa do original francês, da Editorial Estampa, 1974, p. 95 e 96. O original foi publicado um ano antes, ou seja, 33 anos se passaram... algo mudou? Talvez só a última frase...).
Léon Chancerel perguntou um dia para Stanislavski: “Como é que devemos representar para as crianças?”. “Como para os adultos, mas melhor!”, teria respondido o mestre. Imaginemos por instantes que este belo preceito é convictamente admitido e seguido pelas pessoas ligadas ao teatro, e teríamos decerto a esperança de ver grandes artistas dedicarem-se ao espetáculo para crianças, os atores mais dotados e conscientes considerarem um dever trabalhar para um público que exigiria tanto, as investigações mais conseguidas encontrarem nele o seu terreno de eleição. Infelizmente, nada disto acontece, e o teatro infantil tem muita dificuldade em se afirmar com a mesma nobreza de uma arte adulta.Todo e qualquer esforço em relação ao público infantil é alvo de interesses divergentes e por vezes contraditórios que criam uma situação bastante complexa. O público infantil é, antes de mais, um mercado econômico, um mercado formidável, quase inesgotável e bem organizado, bem enquadrado, simultaneamente pela célula familiar e pela escola. É também um público maleável, fácil de enganar, pois, na maioria das vezes não lhe é concedida a possibilidade de escolher e também porque, como é pouco esclarecido, reage a todos os truques, mesmo aos mais grosseiros. É ainda um público sobre o qual podemos exercer influência, um público a educar segundo normas estranhas. É também, felizmente, um público exigente e, por pouco que o tenhamos em conta, já não é um mercado rendoso.

A CRIANÇA QUE FOI A MENOS

por Alejandro Dolina



A professora Claudia perguntou a Ferro:– Ferro, quem fundou a cidade de Assunção do Paraguai?Ferro o ignora e o confessa, a Professora tenta por outros rumos.– Tissot.– Não sei professora – lamenta-se Tissot.– Rossi, pode responder? - pergunta a professora.Silêncio. O ambiente fica pesado porque todos sabemos que isso foi ensinado pela professora Claudia no dia anterior.– Fagúndez.Nada. A professora Claudia olha para a turma sem esconder a sua decepção.Frezza, o “tano” Frezza, sabe, de algum modo misterioso, a resposta. É estranho o caminho que seguem as noções: acostumam ficar onde a gente menos pensa, e por algum mistério do destino, Frezza sabe com exatidão a data da fundação e o nome do fundador.A voz da professora Claudia continuava.– Nuñez. Lopez. Dall'Asta.Ninguém sabe a resposta. Frezza espera, folgado, sabe que levantar a mão para responder é coisa de puxa sacos.A professora Claudia tenta com as meninas e pronuncia o nome que Frezza ama. Frezza está muito longe para passar a resposta e o seu primeiro amor não sabe responder.De pronto, a professora Claudia olha para ele.– Frezza.E Frezza, que talvez precise ganhar alguns pontos com a Professora Claudia, levanta de sua cadeira tranqüilo, olha para o seu primeiro amor e diz, quase em tom triunfal:–- Não sei.Frezza desconfia que, se ninguém sabe, por algum motivo será. Frezza senta e ouve detrás dele, como uma horrível blasfêmia, a voz de Campos, o queridinho da Professora Claudia:– Juan de Salazar!Passaram se os anos. A menina nunca soube do amor de Frezza nem de seu gesto elegante e generoso.Se alguém coloca nota para estas lições num Caderno Celestial, Frezza tirou um 9. E se nem sequer esse Caderno Celestial existe, então terá tirado um 10.

UMA BRIGA

por Alejandro Dolina

Empurraram-me na saída. Teve um tumulto e, depois de uma rápida pesquisa, fiquei de frente com Carlinhos.Foi você? – perguntei.Formou-se uma roda. Alguém gritou:– Bate nele. Meninas aterradas se somaram ao grupo.Carlos ficou vermelho. Mão cruéis o empurraram para mim. Zezinho, falso chefe e sujeito que dá medo, me olhando, disse:– Vai... ou tá com medo?Então parti a boca de Carlinhos de um soco e agora sei que sou o covarde.Primeiros Desenganos não foi aprovado pelas autoridades escolares. Pode-se afirmar que poucas crianças conseguiram lê-lo. Porém, como se alguém lhes passasse preceitos secretos, ainda hoje, no tempo dos Refutadores de Lendas, há crianças que continuam sentadas nas últimas cadeiras e também há homens que, já longe da escola, se afastam das vantagens e oportunidades fáceis.A estes do Fundo, aos que podendo sentar-se na primeira fila a rejeitam, aos que não são exemplos de conduta, aos espíritos lunares, aos alunos de coragem e honra que com certeza não lêem livros como estes, a todos eles tardiamente os abraço agora, que já não me impedem mesquinhezas que carreguei na minha infância.

08 abril 2008

fonte da imagem "Gente em seu sitio" de Quino, criador de Mafalda, Editora Lumen


Expediente N°2:
Direção Geral: Germán Milich – O Tigre
Revisão Final e Jornalista Responsavel:André Ferraz - O Samurai (DRT nº 3244)
Assistente de Revisão: Débora VieiraConselho
Editorial deste número: Mariana Muniz (coord.), Assis Vidigal, O Tigre e O Samurai
Programação Visual: Fred Brottrel
Arquivo e Memória: Gyuliana Duarte
Equipe fixa: Germán Milich - O Tigre; Pedro Gondim – O Antropos; André Ferraz – O Samurai; e Gyuliana Duarte – Xuleta.
Colaboradores neste número: Mariana Muniz, Assis Vidigal, Débora Vieira, Diogo Horta, Hortência Maia, Mariana Vasconcelos, Pedro Murad e Tereza Gontijo (integrantes da LPI-BH - Liga Profissional de Improvisação de Belo Horizonte); Romero Freitas (professor do curso de Filosofia da UFOP); e Dudude Herrmann (integrante da Benvinda Cia. de Dança).
Textos utilizados: “Rastros” e “Errata (Teologia 3)”, ambos de Eduardo Galeano traduzidos por Germán Milich.

EDITORIAL N°2 Match de improvisação

1) Quem disse que nós decidimos algo na vida? Isso a que chamamos de destino, acaso, futuro ou, mais secamente, probabilidades, é a mesma coisa: o desconhecimento do nosso inevitável fim. Não existem infinitas possibilidades, existem infinitos palpites sobre qual será essa única possibilidade que acabará acontecendo. A música se manifesta só para quem pode ouvi-la, da mesma forma a improvisação só é possível para quem ignora seu futuro.
2) Existiu - pelo menos na imaginação de um povo - um animal chamado Hidra, que tinha muitas cabeças: quando uma delas era decepada, surgiam duas novas. Com o significado das palavras acontece o mesmo: “Improvisar” (que vem de “prover de dentro”) é um verbo, uma ação que acontece. Mas, o que significa? Para alguns é dar um jeito, fazer uma malandragem; tem quem ache que é o que faz um ator quando esquece o texto; outros a confundem como um sinônimo de gambiarra... pois bem, voltando à Hidra: dizem que, dentre todas as suas caras, uma é a mais verdadeira, a mais semelhante consigo mesma. E o improvisador procura esse rosto em sonhos e pesadelos, intuitivamente, só por conhecer o coração desse animal impossível.
3) Aproveite!!! Se você nunca entendeu o significado de luta dialética (aquele velho esquema de teses, antíteses e sínteses) está rolando uma no âmbito teatral de BH, âmbito pequeno para o mundo, mas grande para a gente. Trata-se de um fenômeno que não contenta a críticos e sim ao público em geral. Em primeira instância, fazendo uma análise, diríamos que se a maioria das pessoas gosta, tá limpo! Mas (sempre existe um “mas”), como estamos acostumados com a idéia de que o que é da simpatia do povão não é de boa qualidade (à exceção da Globo - Deus me perdoe!) e contando sempre com o fato de que o Xerife não quer coisas novas que atrapalhem a ingestão do seu pedaço do bolo, temos de declarar que oficialmente a mostra performática conhecida como Match de Improvisação não está vinculada ao mundo das artes cênicas. Fizemos, inclusive, outro intento de oficialização inscrevendo o Match para o Pan 2007 (com certeza mais um ouro para Brasil, colocamos na justificativa), mas o comitê olímpico, respaldado pela FIFA, negou nossa face desportiva. Só depois dessas experiências compreendemos que esse “não lugar” (u-topia) onde estamos parados é a casa de um improvisador. E o melhor de tudo é que não importa quem você é, quem você quer ser ou quem você já era, se você é da raça humana é um improvisador.Bem-vindos a nosso evento que humildemente cultivamos para todos! Não prometemos nada, por isso tudo pode acontecer, desde a hilariante história de uma velha que caiu num poço até o preciso momento em que Deus criou o homem.Venha! Com certeza vai se divertir, rir, chorar, ficar indiferente ou, quem sabe, encontrar um sentido para sua vida.
O Tigre

SOBRE BOBOS, HUMORISTAS E FILÓSOFOS

Por Romero Freitas (Profº. de Filosofia da UFOP)

Há uma imensa minoria de humoristas filósofos no mundo. Mas eles não são vistos como filósofos. Eles aparecem no lugar errado: estão no palco e não entre os livros. Desde a Grécia existem também os filósofos humoristas, outra imensa minoria, feita de alguns célebres desconhecidos. Esses humoristas também aparecem no lugar errado: estão nos livros de filosofia, lugar usualmente inadequado para se contar piadas. Por isso, o aluno de filosofia se assusta ao encontrar um piadista como Diógenes, o Cão , na companhia de um sujeito sério como Aristóteles. Mas o admirador de Millôr Fernandes talvez se espantasse ao ver o seu herói cômico incluído no grupo dos filósofos, esses homens supostamente sérios, melancólicos e contemplativos.─ Mas os filósofos não são realmente homens sérios, melancólicos e contemplativos?─ Na verdade, são. E é por isso que alguns deles fazem piada. Eu coloquei aquele “supostamente” para tentar tornar o meu trabalho mais fácil, mas devo admitir que eles têm uma queda pela melancolia, um instinto para a contemplação e mesmo um inconfessado desejo pela seriedade. É preciso ser sério quando alguns dos seus principais temas de trabalho são, por exemplo, palavras como “virtude”, “verdade” e “morte”. É possível fazer piada com a morte, mas ela no final leva vantagem: já interrompeu mais de um piadista no meio da narrativa. Um humorista filósofo americano, que escolheu o cinema como forma de expressão, tem a melhor piada sobre o assunto: “Eu não tenho medo de morrer. Eu apenas não quero estar lá quando isso acontecer”. 1 x 0 pra ele. Mas podemos imaginar uma versão assim: “Eu não tenho medo de morr... Argh!”. Ouve-se um baque surdo. 2 x 1 pra ela.─ Mas então, se você faz uma aproximação entre filósofos humoristas e humoristas filósofos, entre os que riem do trágico e os que pressentem o trágico no cômico, então essas duas trupes, esses dois ramos da imensa minoria são igualmente sérios, melancólicos e contemplativos? É isso? ─ Exatamente.─ E quem são os que não são assim? ─ Ah, isso é fácil. São os bobos.─ Os bobos da corte?─ Não! Esses são seriíssimos. Tal como os mímicos, os clowns, as marionetes... existe algo mais triste do que uma marionete caída num canto, com os cordões caindo pelos flancos?─ Mas quem são os bobos, então?─ Bem... Se você precisa perguntar, acho melhor reler o texto. Ou melhor ainda: vá até uma locadora e pegue um filme do Chaplin. Os bobos são tudo que o filme não é.

QUEM DISSE QUE POLÍTICO NÃO IMPROVISA?

Por Assis Vidigal – ator e improvisadora da LPI-BH


A situação dada é:Uma cueca cheia de dólares: Improvisa aí!No banheiro uma maleta com 60 mil dólares: Improvisa aí!
A Improvisação é um lugar muito propício para presenciarmos fatos absurdos e é justamente isso que faz com que os espetáculos sejam reconhecidos como ágeis, divertidos e surpreendentes. Logo após os espetáculos as pessoas chegam dizendo que não conseguiriam nunca ser improvisadores porque para tal deve-se ter muita imaginação. E a gente sempre diz: “Que é isso?! Todo mundo tem imaginação de sobra!”. O que realmente é verdade. Haja vista nossos políticos! Ultimamente os fatos mais interessantes e “surpreendentes”, que a meu ver só poderiam acontecer em improvisações com excelentes atores, são os que tenho presenciado na política brasileira e mundial. O triste é que logo quando a história está ficando inacreditavelmente boa, nossos políticos não sabem como continuá-la! O problema é que eles não são bons atores! Não leram os 10 mandamentos sobre Improvisação! Aí é um tal de apitar Proceder Ilegal, Jogo Demorado, Acessório Ilegal (para a cueca e os dólares), Imposição de Personagem ( Foi ele! Não! Foi ele! Não...), Confusão e por isso Falta de Escuta (apesar de muita escuta telefônica).Não adianta ter boas idéias, tem que ter técnica! Lembra? Mas já estamos organizando uma oficina com o Grupo Senado Cia. Teatral. Queremos uma oficina sobre idéias mirabolantes e depois daremos uma sobre os conceitos de como se sair bem em uma improvisação, mesmo que ela pareça muito absurda. Falta agora acertar o preço, o que para nós está sendo muito difícil, pois é um tal de pagar fulano que fará um DOC para Sicrano que entrará em contato com Beltrano.Mas o que falta mesmo é o povo pegar o apito e aplicar aos nossos péssimos políticos-“atores” uma falta por Deboche, uma por Péssima Conduta, uma outra por Castigo de Match e finalmente a EXPULSÃO.

A NOVELA DE ADÃO EM CINCO CÁPÍTULOS







Capitulo I - A Criação



por Germán Milich (a exceção do Capítulo V, que é um texto de autoria de Eduardo Galeano)






Voz em off - Depois de criar Adão, Deus disse a ele:



Deus – Vai, Adão, tudo o que vês é teu, mas o que não vês não te pertence. Se tua é a fruta a semente é minha, se tua é a árvore a raiz é minha, se teu é o rio a chuva é minha. Combinado?



Adão - Tá limpo, Pai.



Deus - Lembra que és livre para fazer o que é certo, OK?



Adão - Pode crer!



Deus - Ama ao próximo como a ti mesmo.



Adão - Eu não tenho próximo, Pai.



Deus – Ah, é mesmo!



Adão- (com receio) Você vai fazer mais bonecos de barro?



Deus - Andei pensando...



Adão - (chorando) Não Pai, faz não!



Deus - Calma Adão, ainda não resolvi, calma. Me escuta. Se liga na parada que aqui embaixo da terra a uns 15 ou 20 quilômetros vive um meio parente teu, bem canastrão, que está de sacanagem.



Adão - Eu bato nele!



Deus - Ele é bem mais forte que você.



Adão - E que você?



Deus - Não! Eu existo para todo o universo, ele existe só para você.



Adão - E ele é mais poderoso do que eu?



Deus – É, muito mais poderoso.



Adão - Se ele é mais poderoso do que eu e insignificante para você, então eu sou mais insignificante ainda. (começa a chorar de novo).



Deus - Não é bem assim, são coisas diferentes.



Adão – Não é não! (continua chorando).



Deus - (severo) Adão, você não é o centro do universo. Me escuta, pô! Esse cara é meio doidão, cuidado com ele. Tenta não ouvi-lo muito, porque ele é um vigarista. Falei?



Adão - Falou!



Deus - E se Falei?



Adão - Tá Falado!