13 maio 2008

O Diretor: Abbas Kiarostami



por Leila Verçosa


Em meio a um mercado tão acostumado às peripécias das montagens hollywoodianas, pode-se também apreciar algo bem distinto e de real grandeza artística.
Abbas kiarostami nasceu no Irâ em 1940 e iniciou sua carreira como diretor de cinema aos 34 anos. Sua formação profissional passa pela pintura, fotografia, publicidade, teatro, poesia, televisão, entre outras; e para nossa sorte, dentre estas várias ocupações profissionais, ele tem optado pelo cinema pelo fato desta “arte menor” corresponder ao seu estado de inquietude diante da vida. Assim ele explica com suas palavras:

“Com o fato de ter de sobreviver de qualquer maneira e reagir a um profundo sentimento de inadequação, experimento continuamente a exigência de fazer qualquer coisa de novo para ser mais bem aceito. Muitos consideram que na vida é preciso estabelecer uma meta para encontrar o sucesso, mas eu não acredito que funcione dessa maneira. Talvez no mundo dos negócios ou no âmbito científico. Na arte, ao contrário, o aperfeiçoamento só pode surgir da inadequação... Pensamos ser inadequados, não bastante bons, e nos esforçamos para fazer algo diferente. Ultimamente, tenho pensado em um outro tipo de cinema, que me torne mais exigente e que se defina como uma sétima arte. Nesse cinema há música, sonho, história, poesia. Mas, seja como for, acho que o cinema continua a ser uma forma de arte menor. Questiono-me, por exemplo, por que motivo ler uma poesia excita a nossa imaginação e nos convida a participar de sua realização.”

A característica mais forte deste diretor é uma tal “ausência” de sua função nas filmagens, ou seja, a busca por uma sutil presença do diretor, o que dá aos seus filmes um tom quase documentário e cheio de significados. Ele não entrega a mensagem mastigada ao o espectador, ao contrário, ele a disponibiliza, potencialmente, diante do olhar do espectador para que este possa, sozinho, digeri-la e dar-lhe significado.
Diante disso, o diretor abre mão dos vários recursos que a montagem cinematográfica pode dar, principalmente, para o entendimento do filme. Além do mais, suas obras optam pelos planos-seqüência. E é exatamente aí onde o teórico, André Bazin, concordaria com o diretor iraniano, que leva ao espectador a responsabilidade da significação de sua obra.
Além disso, Kiarostami não se preocupa em finalizar suas histórias, mas sim, em dar material para que o espectador possa contemplá-las profundamente. O olhar profundo e analítico do espectador é, portanto, indispensável para a apreciação de seus filmes, além de que, traz uma relação bem próxima com o olho do ator, que, por sua vez é o dispositivo da alma.
Assim, ele foge dos padrões de início, meio e fim, que os habituais roteiros cinematográficos baseiam-se para se concretizar a narrativa. Seus filmes não têm um momento “clímax”, onde o mais importante acontece, eles, simplesmente, acontecem, em ritmo linear, respeitando a ordem cronológica dos acontecimentos. Diante disso, ele constrói a não-narrativa, permitindo ao espectador a vazão da imaginação através do olhar, sem que este perca a noção diegética do filme.

“Não gosto quando o cinema se limita a contar uma história ou quando se torna um substituto da literatura. Não aceito que subestime ou exalte o espectador”.

Apesar de não se enquadrar em nenhum estilo cinematográfico, e sim em seu estilo único, Kiarostami se inspira no neo-realismo italiano. E para dar ainda mais realismo à sua obra, o diretor conta em seus filmes com a “presença constante de atores não profissionais, pessoas das próprias regiões, que se dispõem a interpretar praticamente elas mesmas e se retratarem na tela para o mundo”.
Por sua vez, a tela, o dispositivo do cinema, se torna um reflexo do olhar deste sensível diretor, que, tão habilmente, transforma a câmera em um prolongamento deste seu olhar. E assim transformando o olhar do espectador mais apurado e sensível aos olhos do mundo.

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