08 abril 2007

Entrevista com Ione de Medeiros, diretora do grupo “Oficcina Multimedia”

A Função da Arte



Por Germán Milich

Numa tarde de chuva cheguei à casa de Ione. O que vi foi um quartel geral de militantes da arte. Ione os comandava em silêncio e me recebeu com calma. Eu abri o jogo, a primeira coisa que disse para ela foi que não sou jornalista; a segunda, que tentaria não distorcer o que ela falasse; e a terceira, que a gravação da entrevista iria ficar a disposição do público no Centro de Referências do Galpão Cine Horto. Aceitei um café e começamos.

A Imensa Minoria: Quando você fala de público, está se referindo a quem?


Ione:
A qualquer indivíduo que se desloca para ir ao teatro, sem discriminar ninguém. Não acredito na idéia de público alvo, porque quando falamos de público abarcamos desde crianças até idosos. Acho que não se deve afunilar nenhum espetáculo com o pretexto de que isso não é para esse público, porque se desvaloriza a capacidade de percepção intuitiva inconsciente. O imaginário do ser humano tem vezes que vai por caminhos impossíveis de padronizar. Também é discutível o conceito de “público”. Em definitivo o que existe são pessoas que estão ali assistindo. Se você afunila essas pessoas dizendo qual é o espetáculo para ela se encaixar, você está privando-as de entrarem em contato com um material menos deglutido. Talvez o erro é apostar em uma única forma de comunicação fortemente marcada pela necessidade de agradar. Eu não concordo com isso, não acho que nossa função seja agradar. Nossa função é levar um assunto para debater, não pensar se o público se agradou ou se o publico entendeu, é pensar se a gente comunicou. Outra coisa importante é que o público não é só para ser contemplativo, não estou falando de colocar alguém no palco, estou me referindo as respostas que ele começa a elaborar no momento que o artista coloca as questões.




AIM: Você acha que as pessoas que conformam esse público são as que você quer atingir?


Ione: É bom dizer que temos dois tipos de óticas sobre o público na hora de formatar projetos culturais. A mais comum é pensando na quantidade, inclusive é uns dos critérios principais na hora de escolher ou dar espaço para qualquer manifestação. Quando você direciona a sua proposta para qualquer tipo de resultado, neste caso quantitativo, você está traindo uma das funções do artista, que é entrar com alguma coisa da qual não tenha confirmação do resultado. O artista propõe uma reflexão do seu tempo, com sua linguagem. Logicamente que queremos propor isso da melhor forma possível. Ninguém quer fazer uma peça que seja para não assistir, mas, está fora de nosso âmbito de trabalho calcular quantas pessoas vamos atingir. Isto não significa que eu não esteja preocupada com a comunicação, significa que não estou preocupada com a tranqüilidade do publico. Não sei se existe a Arte–Entretenimento, não considero uma diversão refletir sobre o ser humano e seu tempo, considero isso uma função antropológica e social cuja utilidade é colocar no debate problemáticas comuns a todos.


AIM: Quais problemáticas?


Ione: Existem muitas: a questão da sobrevivência do planeta; a desigualdade social; a própria evolução do homem; a criação de uma visão coletiva da sociedade; a necessidade de afeto; a angustia da vida; a esfera da morte; o sentido da existência...



AIM: Talvez ficar na superfície das coisas é uma forma de defesa do ser humano...


Ione: Pode ser. Talvez muitas pessoas achem inútil falar da morte ou de problemas tão profundos porque, em definitivo, são problemas para os quais o homem não tem solução, mas, pelo menos falar daquilo que nos aflige, evita com que se manifeste de uma maneira mais nociva, como a violência e o preconceito. Em todo caso, o que importa é a responsabilidade, não adianta ser uma pessoa sem nenhum preconceito, que aceita tudo, mas não faz nada. Hoje com o fenômeno neoliberal existem espetáculos que são catálogos de coisas sem significado, sem alma.



AIM: Quando fala de fenômeno neoliberal está se referindo ao mercado como regedor de tudo o que se produz?


Ione: Neoliberalismo como momento no qual os parâmetros econômicos - onde o que importa é a quantidade de pagantes - fazem com que o sucesso seja mais importante que responsabilidade. Eu sinto falta de elaboração e de cuidado na hora de criar.



AIM: Você acha a classe artística folgada?
Ione:
Sim, para começar acho que não toma partido, não vejo um posicionamento claro, não vejo uma inquietação. Qual é o compromisso que nós temos? Parece que nenhum. O grande sintoma é a falta de interesse. E falta um trabalho real, horas de trabalho. Fazer uma coisa bem feita leva trabalho, não é nenhum mistério. Nós sentimos a falta de um ponto de encontro onde falar coisas além das leis de patrocínio, se a gente entrou, se a gente não entrou, se a gente captou... é um tema importante mais não é o único. Sentimos a falta de debate sobre a inserção dos artistas na nossa época, por isso criamos o MARP (Movimento de Arte e Reflexão Política). Este ano fizemos quatro sessões: a primeira foi “Tempos Sombrios: o consumo e a guerra”, a segunda “Neo Horizonte: a cidade em transe”, a terceira foi sobre a inclusão dos moradores de rua “A cidade é uma estranha senhora, que hoje sorri e amanhã te devora” e a quarta foi “Em Busca do Tempo Perdido”. Nosso desejo é não direcionar a discussão do ator só para a questão da verba. Falta discussão filosófica, falta discussão de linguagem, existe muita permissividade, por mais que a época seja um pouco difusa, com muita coisa aparecendo, deve existir responsabilidade.




AIM: Você acha que os artistas têm uma posição autocrítica?


Ione: Não. Também não têm interesse por conhecer outras formas de expressão. Não vejo muitos atores visitando exposições, ou bailarinos assistindo peças, não vejo uma inquietude multimídia, que para compreender o momento atual é fundamental, não vejo interesse pela cultura em geral, isso faz com que o olhar autocrítico não aconteça.



AIM:Você acha inevitável um confronto entre as gerações?


Ione:
Eu gosto da visão dos Orientais e o conceito do Mestre, que de alguma forma propõe uma alternativa à visão Ocidental do filho querendo superar o pai, porque na realidade, seria muito bom se a gente conseguisse aprender com o outro. Temos uma crise de mestres. Se conseguíssemos enxergar os outros como mestres - aprender e ensinar com generosidade - evoluiríamos muito mais. Acho importante a quebra da hierarquia no fazer artístico, porque para tudo tem um ofício, até para organizar o espaço que você vai trabalhar, escrever uma carta. Hoje o criador não é mais aquele indivíduo na sua torre e o resto realizando o pensamento dele. Hoje ele faz tudo.


AIM: Será que os grandes errados são a nossa geração?



Ione: Pode ser. Uns dos maiores erros é o próprio teatro não acreditar em si mesmo. A gente não pode sucumbir. Se você se entrega; se você deixa de acreditar; se começa a fazer um teatro televisivo com uma mensagem cuja finalidade seja acariciar; se começa a trair as funções do teatro que são arcaicas e que continuam a ser as mesmas, estará fazendo um teatro morto. O teatro é a arte mais direta, a única onde está presente a fragilidade humana como componente fundamental, porque você está aí, podendo errar a qualquer momento, e essa fragilidade é o que emociona neste mundo facilitador e de caricias em troca de consumo, onde você é agradado não por ser você, mas para que você possa consumir. Como você lida com essa realidade oposta ao teatro, que é uma manifestação que não tem como objetivo agradar? Como você mantém a essência humana em meio a tanto materialismo, tanta dispersão, tanta ilusão virtual? A resposta eu acho que é: “acreditando no teatro”. Na história das artes, os grupos de vanguardas sempre são pequenos e sustentam uma geração. Que obra deixou o dadaísmo? Um grupinho de pessoas que destruiu toda uma forma de pensar acadêmica e sobrevive até hoje sem nenhuma obra. A sua obra é o próprio movimento que criaram.





AIM: Qual é o caminho que você acha que uma artista deve seguir para realmente atingir as funções da arte?



Ione: Uma coisa que eu acho importante é tomar posição, quem lida com cultura tem uma responsabilidade. A falta de posicionamento claro é extremamente prejudicial. Há critérios que a gente tem que seguir. Isso não significa estabelecer o que academicamente é certo ou errado, mas sim estabelecer critérios e ter rigor para segui-los. Eu tento fazer o melhor que posso, é muito provável que não consiga, mas tenho que tentar por ter responsabilidade sobre o que eu faço. Em primeira instância, porque estou fazendo uso de um gesto ancestral; e em segunda, porque estou ocupando um espaço, então tenho que ocupá-lo bem. Eu tenho uma sensação de gratidão quando entro num palco e tem tantas pessoas aí para trabalhar numa coisa que faz parte de um mundo que não é pragmático. Porque a arte não é pragmática, você não faz arte para ter um resultado amanhã, aliás, você nem sabe qual vai ser o resultado.
Existe um caminho real que é inadiável, que é o autoconhecimento: descobrir em você mesmo porquê você faz arte. A sociedade toda é feita de funções, então, como é que você está conectado com você mesmo e sua função? Depois, se preparar para desempenhar da melhor forma possível essa função. Criar é trabalhoso. Precisa de tempo e ferramentas aguçadas: o corpo, a voz a sensibilidade. A gente tem que se conectar profundamente. O inconsciente é um nível profundo onde o ego fica menor e você não fica ao serviço de uma idéia sua que é superficial. Esse chegar no inconsciente é o período de caos onde você não tem domínio onde você está procurando signos e símbolos, onde a coisa precisa ser organizada em termos de linguagem, onde você não pode ter pressa nem deixar passar, porque o ritmo dessa obra que quer existir faz com que você dilua seus desejos em função do que é preciso fazer. Por isso eu sempre falo que só acredito em revoluções individuais.

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